Vivendo da Floresta

A agrofloresta recupera antigas técnicas de povos tradicionais de várias partes do mundo, unindo a elas o conhecimento científico acumulado

Trabalhar a favor da natureza e não contra ela, associar cultivos agrícolas com vegetações florestais, recuperar os nutrientes em vez de esgotá-los e incorporar conceitos ecológicos ao manejo de agroecossistemas são algumas das características da Agrofloresta.


Na perspectiva da produção sustentável de alimentos, a agrofloresta se utiliza da interação integrada de insumos vegetais e de um manejo adaptável a cada região, clima, flora e fauna. A agrofloresta recupera antigas técnicas de povos tradicionais de várias partes do mundo, unindo a elas o conhecimento científico acumulado sobre a ecofisiologia das espécies vegetais, e sua interação com a fauna nativa.


Para se caracterizar um sistema agroflorestal, deve haver consórcio entre espécies florestais, com este quesito cumprido, o sistema agroflorestal já contribuirá para a preservação ambiental, sem contar nos sistemas mais complexos de agrofloresta, que por sua fez consorcia várias espécies florestais, tanto nativas como exóticas. Esses sistemas mais adensados obtém maior sucesso na preservação do ambiente, eles ajudam a conservar o solo, dar exposição direta, tornando-o assim mais produtivo, além de manter a umidade. A respeito da fauna, a agroflorestal se destaca como único modelo de produção agrícola que pode ser o habitat de diversas espécies de animais.

Alunos aprendem a técnica na prática. (Foto: Divulgação)

O projeto “Agrofloresta como alternativa para uma agricultura sustentável”, coordenado pelo professor José Cláudio Barros Ferraz, atualmente professor de Agricultura do Instituto Federal do Piauí (IFPI), Campus Avançado José de Freitas, trouxe para os alunos do campus uma introdução à agricultura sustentável aliada à pesquisa científica. O professor afirmou que enxergou no Edital 013/2017, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Piauí (Fapepi) uma oportunidade de introduzir os alunos na pesquisa, já que muitos deles nunca tinham ouvido falar sobre o tema.


“A ideia central foi dar a oportunidade para que os alunos discutissem maneiras alternativas de produção de alimentos, pensar na produção de alimentos seguros e limpos, para que possam ter uma formação completa como técnicos em Agricultura”, afirma o professor.


Foram 6 meses de projeto, com o objetivo de propor modelos de agrofloresta, visto que a agrofloresta não é um modelo único, mas uma prática que traz consigo muitas variáveis que precisam ser pensadas para se adaptarem a cada região. Isso implica pensar se as espécies escolhidas poderão se desenvolver naquele tipo de solo, clima, frequência e chuvas, etc.


Essas escolhas também levam em conta o que o produtor local já culturalmente produz. Se culturas de uma determinada região, como, por exemplo, milho ou feijão são fortes e historicamente cultivadas, elas devem fazer parte do arranjo agroflorestal, ao mesmo tempo que novas espécies são introduzidas para aproveitar o espaço e seus benefícios.


A agrofloresta segue o princípio da biodiversidade, pois cada planta vai ter uma função no sistema. Algumas têm a finalidade de apenas contribuir com as outras, produzindo biomassa vegetal e protegendo o solo. Concluído o ciclo de vida da planta, a decomposição vai continuar o ciclo de nutrientes, gerando uma outra planta no lugar. “Por exemplo, plantas leguminosas e arbóreas, tem por característica, fixar nitrogênio no solo, através de bactérias na raiz, que em simbiose com a planta, disponibilizam nitrogênio para as outras plantas próximas”, conta o professor, demonstrando como o carro-chefe da agrofloresta é o arranjo interdependente das espécies, gerando o menor impacto possível no ambiente, e em certos casos, servindo até mesmo para recuperar solos degradados.

“Nesses primeiros 6 meses nós conseguimos completar nosso objetivo, implantar uma agrofloresta no campus, propor modelos para uma mesma área que a torne viável e produtiva. Mas como era a nível médio, para o aluno sentir o que era uma pesquisa, foi um projeto também simples, a nível que o aluno pudesse executar. Na implantação da agrofloresta, nós chegamos a ter numa área de 600 metros quadrados, 35 espécies de plantas diferentes. O projeto cumpriu a etapa do edital mas continua até hoje, depois de mais de um ano. Temos uma disciplina de sistemas agroflorestais, no curso técnico em agroecologia, em que esse projeto possibilitou que 90% do ensino fosse prático, ou seja, um horário teórico em sala e os outros dois no campo. Inclusive a avaliação desses alunos também era no campo, cada um dia dizia o que aprendeu, o que errou, o que precisava ser feito, etc. Isso melhorou a condução da nossa disciplina e do nosso curso”, completa.


O Campus Avançado José de Freitas no ano passado foi premiado na REDITEC 2018, Reunião Anual dos Dirigentes das Instituições Federais de Educação Profissional e Tecnológica em Búzios, no Rio de Janeiro. O projeto “IFPI na difusão de tecnologia e inovação nas comunidades e assentamentos rurais de José de Freitas do Piauí”, dentro do qual o manejo de agrofloresta coordenado pelo professor José Cláudio faz parte, foi o campeão.


A reunião anual é realizada desde 1977. O evento reúne os dirigentes de todos os institutos federais, dos centros federais, da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, das escolas técnicas vinculadas às universidades federais e do Colégio Pedro II. Busca avaliar práticas e resultados, partindo da realidade e dos desafios de instituições pluricurriculares e multicampi, com base na conjugação de conhecimentos técnicos e tecnológicos e suas práticas pedagógicas.


“Através desse projeto estamos conseguindo inserir os alunos e contribuir na formação deles através da prática e da vivência, assim podemos reter esse aluno na escola, diminuindo a evasão”, finaliza o professor.

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