Existir como mulher é o mais importante

Médica e professora doutora, Andrea Rufino nos leva à uma reflexão sobre a complexidade do que é ser mulher e da luta feminina para ocupar espaços, como os do mundo acadêmico

Uma oficina sobre o corpo feminino foi alvo de polêmicas na Universidade Federal do Piauí em 2018. Na ocasião, a professora doutora Andrea Cronemberger Rufino foi desnecessariamente atacada com vários insultos pela sua participação no evento, que tinha como finalidade empoderar alunas, professoras e mulheres da comunidade.

Hoje, dois anos depois, ela acredita que ainda há muito a ser conquistado para que o protagonismo feminino seja cada vez mais viabilizado dentro do mundo acadêmico. Para a pesquisadora, o lugar da mulher na Academia é uma questão a ser levantada sempre, pois a lógica atual cria uma hierarquia que inviabiliza a equidade de gênero.

A disparidade não é um fato isolado, ela reflete muitos aspectos, incluindo diferenças salariais. Recentemente o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) publicou dados que demonstram que o rendimento mensal médio das mulheres com ensino superior foi 38% menor do que o dos homens durante o quarto trimestre de 2019.

Atenta nessas questões e apaixonada pela Ciência, Andrea defende que há uma lacuna de temáticas ainda a serem investigadas sobre o feminino dentro das universidades. Além disso, ela destaca que as mulheres devem se empoderar e pesquisarem sobre suas próprias temáticas. “O que me interessa falar sobre o feminino; o que interessa a outras mulheres em falar sobre o feminino?”, ela questiona.


Como você vê a mulher na ciência hoje? Primeiro acho que vale a pena a gente começar falando de como a mulher está a partir do curso superior, das graduações. Há dados já publicados de que 60% das pessoas frequentando o ensino superior são mulheres. A população de pessoas no ensino superior é predominantemente feminina. Mas, à medida que essas mulheres vão saindo dessa graduação, a distribuição delas em pesquisas, em carreira acadêmica, faz cair o percentual. Há dados de um levantamento feito pelo CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico] em 2015 evidenciando que as mulheres representam apenas 25% entre pesquisadores A1. Veja então que 70% dos pesquisadores seniores do CNPq são homens. O que acontece entre essa graduação e essa caminhada científica e acadêmica? Porque as mulheres não estão neste campo?

Uma outra questão importante para pensarmos é em que áreas a mulher é vista na ciência. E não tem como a gente fugir dos estereótipos de gênero, do papel social da mulher, da falta de equidade de gênero. Temos uma série de experiências de papéis de gênero que são impostas como naturais, como a maternidade. E essas são questões que vão atravessando as nossas vidas e que com certeza impactam na caminhada dessas mulheres de uma graduação de nível superior para um lugar de pesquisadora.

Algo que também devemos dar atenção são as áreas onde as mulheres estão distribuídas. Estes estereótipos de gênero também nos colocam na função de cuidadora então, no geral, há profissões que são predominantemente femininas, que são buscadas pelas mulheres. Mas será que isso não é assim porque foi o que nos veicularam por muito tempo? Cerca de 80% da enfermagem é ocupada por mulheres e quando você procura as mulheres nas ciências exatas, na matemática, na engenharia, na física, há um percentual muito menor. E quando se olha para além da graduação e para o lugar dessas mulheres à frente da ciência nesses campos, fica mais difícil ainda. No curso de medicina, por exemplo, o último censo médico feito pelo CFM [Conselho Federal de Medicina] identificou que na maior parte dos cursos médicos há predominantemente mulheres e que a maioria dos médicos do Brasil é de mulheres. Essa é uma realidade que precisamos pensar.


Há dados também mostrando que, até seis anos de idade, as meninas não têm nenhuma dificuldade com suas habilidades e se expressam bem, mas depois dessa idade elas começam a perder a autoconfiança de que elas têm habilidades para lidarem com máquinas, por exemplo. Esse patriarcado, onde estamos todas inseridas, vai começando a trazer uma ideia, um estereótipo de mercado de trabalho onde as meninas vão perdendo essa confiança. E esse é um ciclo vicioso, porque podemos nos perguntar pelos modelos de mulheres em vários campos, para nos inspirar e dizer: “puxa, esse pode ser um caminho viável pra mim”. A falta dos modelos também vai complicando isso.

E tem um outro recorte muito importante quando falamos de mulheres: o gênero já desenha esse perfil na ciência, mas quando falamos de raça, esse recorte é mais vulnerável ainda. Essa pesquisa do CNPq mostrou que só 7% de pesquisadoras são mulheres negras. O racismo estrutural está aí mostrando toda sua face no ambiente da ciência. São essas questões de gênero, raça, os estereótipos, a falta de modelos. Se resolvermos enveredar em determinados campos, há um descrédito. Não dá para falar de mulheres e ciência sem falar de patriarcado, sem falar dessas hierarquias e da falta dessa equidade de gênero.

Você percebe que há mais abertura no mundo acadêmico para pesquisas sobre mulheres e meninas? Há sim. As mulheres têm esse protagonismo como objeto de estudo. Eu mesma tive a curiosidade de ver no PubMed quantas pesquisas aparecem cujo os temas são as mulheres. Foram 402 mil pesquisas com temática feminina e 92 mil pesquisas com temas de homens. A saúde das mulheres, os seus comportamentos, vários recortes sobre a sua vida são objetos de estudo. De 1980 para cá começamos a pesquisar muito mais sobre sexualidade e sexualidade não-heterossexual das mulheres. Mas é assustador, até os anos 2000, a resposta feminina ao prazer colocava as mulheres em um modelo igual ao da resposta sexual masculina.

Só no começo deste século os estudos da canadense Rosemary Basson descortinaram que mulheres não têm a mesma resposta sexual que homens. Vinte anos, apenas. Temos muito o que desconstruir, questionar e descobrir. E o mais importante, que nós mulheres possamos falar de nós mesmas. Sobre nosso corpo, sobre o que sentimos, sobre o que vivemos. E a ciência é um campo gigante para essa nossa atuação. Temos que nos empoderar desse lugar e nos questionarmos: “o que me interessa falar sobre o feminino; o que interessa a outras mulheres em falar sobre o feminino?”. Essa voz é nossa.

E o machismo na academia, como ele se comporta? O machismo é fruto do patriarcado, desse modelo de sociedade em que os homens se impõem sobre as mulheres, com as oportunidades primeiro para eles. Aos homens o mundo produtivo, às mulheres o mundo reprodutivo. A gente ainda vê muito isso. A mulher falando em uma reunião e o homem atropela a sua voz. O tempo de fala para a mulher acaba ficando menor. E em determinadas áreas não há presença do feminino, e isso é fruto de tudo isso que estamos falando. E quando a mulher chega, acaba tendo que usar armas patriarcais, como não levar o filho, sacrificar várias coisas na maior angústia e divisão. O machismo está em tudo isso. Daí é preciso se esforçar toda hora para se igualar aos homens. É de um esforço emocional sempre muito forte. O patriarcado deixa claro que os homens não precisam provar que são bons e essa cultura fálica leva a aceitar que se o homem está ali, ele “é capaz”. As mulheres, mesmo quando ocupam determinados lugares, sofrem com o olhar social que ainda é de dúvida, de expectativa, sempre avaliativo. Nesse patriarcado, os homens foram castrados nas emoções e as mulheres foram castradas no próprio corpo. O corpo não é para nossa posse. Não temos o direito ao prazer do nosso corpo, não tomo posse nem de mim. O homem precisa entender que sentir é humano. E em todas as áreas que as mulheres conseguirem entrar, é importante que trabalhem os seus valores.

Você acha que há temáticas de pesquisas sobre o feminino que ainda são invisibilizadas? Sim. Acho que precisamos olhar muito para várias temáticas. Mas também dar visibilidade para essas temáticas sob o olhar feminino. Os direitos sexuais e reprodutivos, os métodos contraceptivos, o direito ao aborto, violência de gênero, seja para mulheres cis ou mulheres trans. Precisamos falar sobre as violências que atravessam as mulheres. Sobre sexualidade e sobre prazer, a maioria das publicações é nessa visão e no modelo masculino, reforçando estereótipos. Tudo que se escreve sobre orgasmo feminino, sobre excitação feminina é sob esse olhar. As próprias mulheres têm dificuldade de escrever sobre a história do seu próprio prazer e dizer: “o tempo do sexo é da mulher e não do homem”. Da década de 60 até os anos 2000 o percentual de mulheres com desejo hipoativo, ou sem libido, era muito alto, mas porque elas eram vistas a partir do modelo de desejo sexual masculino, determinado pela testosterona, que impele um desejo sexual objetivado, rápido; diferente do que o estrogênio determina no desejo feminino, que precisa de um contexto, de um clima, de intimidade. Quando se evoluiu nesse sentido, o percentual de mulheres com desejo hipoativo caiu absurdamente. Mesmo assim eu ouço diariamente das mulheres que não têm desejo sexual, e quando eu as questiono a resposta é sempre parecida: “meu parceiro diz que eu não tenho, porque não quero fazer sexo todas as vezes que ele quer”. Olha o corpo que não é pra mim. Nós não estamos doentes porque não correspondemos à expectativa dos homens. Veja quantas coisas precisamos divulgar, falar. Fazendo com que essas pesquisas, esses resultados, cheguem aos ouvidos de todas as mulheres.

Quais são as temáticas que você considera hoje como mais relevantes? A sexualidade feminina nesse sentido de resposta e prazer. E tem algo que está borbulhando que é falar sobre ejaculação feminina, que não é o termo adequado, já que nos compara ao evento que acontece com os homens. Já começo questionando que esta palavra ejaculação não se aplica, já que é outro fenômeno o que acontece com as mulheres. As mulheres podem eliminar um líquido, muito semelhante à urina, mas mesmo as mulheres têm um olhar pejorativo para isso. Têm muitas ideias para pesquisar e há pesquisadoras de olho nisso tudo. Na anatomia feminina, anatomia genital do clitóris e como mulheres sentem prazer. Outra questão do momento são pesquisas sobre saúde que envolve mulheres trans, como riscos da hormonioterapia cruzada, segurança a longo prazo e cirurgia afirmativa de gênero. Além da violência, que é um tema do momento, especialmente as que não são reconhecidas como tal, como por exemplo, os relacionamentos abusivos e os estupros dentro dos relacionamentos. Há muitos temas que precisam ser pesquisados. Como é a abertura da academia para pesquisas sobre as mulheres trans? Eu acho que precisamos dar mais visibilidade. Recentemente saiu uma nova resolução do CFM (Conselho Federal de Medicina) tratando do tema. Isso nos trouxe um norte de como os profissionais da medicina podem atuar com essa população, normatizando como ginecologistas, urologistas, cirurgiões plásticos, psiquiatras e outros podem atuar. E isso foi bacana, pois abre um campo de trabalho para que médicos se sintam seguros em atuar, já que são muitos os tabus.

Como você vê o relacionamento e a dialética entre pesquisadoras e pesquisadores?

Eu tive uma experiência muito feliz de ter um parceiro acadêmico que gosta e se sente muito mobilizado para pesquisar a temática da saúde das mulheres, da mortalidade, da saúde reprodutiva. Eu tive esse privilégio de ter esse parceiro. Não tenho muito do que me queixar. Mas sei que em muitas áreas é um desafio, embora tenhamos pesquisadores homens no Brasil que fazem um belo trabalho pesquisando sobre saúde das mulheres. Embora eu ache que esse lugar não deva ser só das mulheres, tem que ser um lugar de mulher. O protagonismo deve ser majoritariamente feminino.

Em fevereiro comemoramos o dia internacional das meninas e mulheres na ciência. Como enxerga essa data? Eu sou muito positiva. A gente olha para trás e vê tudo que a gente ganhou. Solidificamos um chão para a gente caminhar. Quando vemos a história das mulheres na ciência, puxa, como andamos. Tudo bem, andamos menos do que gostaríamos, sim, mas andamos. A gente pode comemorar até onde a gente chegou, mas claro que está muito aquém do que a gente acha que seria legal para uma sociedade realmente igualitária. É um dia de comemorar até onde a gente chegou e também pensar naquilo que nos desafia. Nos desafia pensar na equidade de gênero, nos desafia para valorizarmos os modelos de mulheres inspiradoras na ciência. Temos que tomar essa data como empoderadora das nossas habilidades. E dizer para as meninas de todas as etnias, cis ou trans, que a gente pode sonhar, que a gente precisa construir uma rede feminina na ciência, onde a gente se apoia e se vê uma nas outras, pavimentando esse caminho. É um dia também de pensar nos nossos desafios, mas com a visão de que podemos vencer cada um deles. Você acredita que as pesquisas feitas pelas mulheres e sobre mulheres têm despertado cada vez mais interesses? Com certeza. Primeiro porque as pesquisas sobre mulheres vão dando visibilidade aos temas que são caros para nossa existência. Então, se olharmos por exemplo para o aborto, a Pesquisa Nacional de Aborto (PNA), da pesquisadora Débora Diniz, trouxe a realidade de que uma em cada quatro mulheres no Brasil já realizou um aborto, seja de qual for a classe social e a religião, dentro do Brasil urbano. E como isso foi impactante, como essa pesquisa trouxe a pauta do aborto para ser discutida em meio a tantos problemas e tanta violência contra as mulheres. A própria professora Débora está fora do Brasil, em vista das suas pesquisas na área. Mas veja o que nós avançamos. Quando estudamos temas que fazem parte das nossas vidas damos visibilidade ao que é ser mulher no mundo. E como as pesquisas têm esse poder de procurar respostas para uma realidade que nos inquieta, elas trazem respostas e abrem outras perguntas. Há muitos estudos sobre a participação das mulheres nas Ciências. Como você enxerga esses estudos? Eu acho que eles são muito importantes, uma vez que retratam quem somos nós. Põe o retrato da realidade: onde a gente está, onde estamos distribuídas. O que acontece conosco quando chegamos nesse mundo acadêmico? Já colocamos que 60% das vagas em cursos superiores são de mulheres, mas isso vai minguando e quando chegamos no número de pesquisadoras femininas com produtividade A1 do CNPq a porcentagem é de 25%. E o percentual dentro desse de mulheres negras é só 7%. Isso fala sobre nós, sobre a sociedade em que a gente está. Dá a visibilidade necessária para podermos questionar se as mulheres não se interessam pela ciência ou se encontram tantos obstáculos no meio do caminho que fica difícil prosseguir. Como o cenário atual do Brasil impacta nessa realidade? A gente vive hoje uma situação muito difícil para existência das mulheres. Um país com um governo cada dia mais patriarcal, mais machista, mais misógino, mais violento com as mulheres. E que toma esses valores como valores de governo. Então, tudo que foi construído nos últimos anos, relacionado a direitos das minorias sexuais e direito das mulheres estão ameaçados. A gente vive um momento difícil no país e isso se reflete em todos os campos; como no científico, onde uma série de programas de incentivo à ciência que estão sendo prejudicados. Várias ações afirmativas sociais para as minorias estão sob ameaça, estão com perda - tivemos perdas importantes - isso impacta de uma maneira muito negativa. Isso só nos faz ter mais vontade de arregaçar as mangas, manter essa presença como resistência. Tudo isso que a gente falou até agora ganha importância muito maior. Quer dizer, se em uma situação de governo de existência de política favorável para a gente pesquisar aquilo já é importante para dar visibilidade, você imagina a gente indo contra o fluxo e resisti dizendo que a saúde das mulheres importa, que ser mulher no mundo importa, que os temas femininos importam, que a gente precisa falar de sexualidade, de prevenção de gravidez e que a gente precisa falar sobre direitos sexuais reprodutivos das mulheres, que a gente precisa dizer que as mulheres são vítimas de violência dentro de casa pelos homens, que elas engravidam e não podem fazer aborto em uma situação em que aquilo é uma violência para aquela mulher. Agora que importa mais dizer sobre tudo isso. E é um ato de grande resistência a gente se manter nesse canto e falando as mesmas coisas, aí é que essa voz ganha importância mesmo. O que há de mais importante hoje no meio de todas essas discussões? Existir como mulher é o mais importante. Falar que a gente é mulher e falar o que é ser mulher no mundo, afirmar essa questão do gênero é o ponto de partida. E o que é ser mulher? Isso já é transgressor de maneira absurda, porque o gênero é um marco social. Nasce uma criança com uma vulva e alguém diz: “é uma mulher!”. Esse marco é que vai delimitar que você vai receber um nome de mulher, que vai ser chamada mulher, e vai ter que obedecer a todos aqueles esteriótipos, papéis sociais e hierarquia. Quando colocamos esse olhar sobre nós, quem passa a definir se sou mulher e o que é ser mulher somos nós mesmas. Nesse ponto devemos questionar a cisgeneridade.Tem muita mulher que não tem um corpo com vulva. A gente poder existir e falar do que nos oprime, do que nos impede de ser a mulher que somos. Como essa sociedade nos sufoca a voz, a primeira coisa que a gente aprende muito cedo como mulher é: “cala a boca!”. Eu poder estar aqui com você, rasgando esse verbo e dizendo todas essas coisas, já é revolucionário, já é resistência, já é dizer: “minha voz importa, falar sobre mulheres importa, as nossas vidas importam!”. A resistência vem do existir, do afirmar essa existência. Então, acho que isso é o mais importante, uma luta no corpo a corpo. Hoje, é uma luta no corpo a corpo.∎

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