De olho no céu

Despertando interesse desde o passado até a modernidade, a Astronomia é uma das Ciências que tem ganhado espaço no Piauí nos últimos anos

A Astronomia é uma das ciências mais antigas da humanidade. Culturas pré-históricas deixaram vários registros e artefatos astronômicos como Stonehenge, os montes de Newgrange e os Menires. As primeiras civilizações, como babilônios, incas, gregos, egípcios, chineses, indianos, persas e maias realizaram observações precisas do céu noturno, e que culminaram em avanços exponenciais, como o desenvolvimento agrícola, e outras ferramentas hoje necessárias para o desenvolvimento humano, como, por exemplo, a elaboração de calendários.


A Profª. Drª. Cláudia Melo, do Departamento de Física e responsável pelo projeto Museu das Ciências, na Universidade Federal do Piauí (Ufpi), destaca que mesmo com suas diversas descobertas, seus diversos conhecimentos, essa ciência não conseguiu alcançar a sociedade em geral, que, sem o acesso a esses conteúdos, fica mais vulnerável a notícias falsas, como a teoria terra-planista, por exemplo.


“Se for ver essa ideia [terra plana], ela já foi abandonada há muito tempo. Se fizer um levantamento histórico, é possível ver que os egípcios já tinham formas de medir a curvatura da terra. Então, acho que precisamos, sim, levar esse conhecimento que o homem acumulou por gerações para toda a sociedade. Nós precisamos, sim, divulgar [o conhecimento] para poder minimizar esse tipo de pensamento”, afirma Cláudia.


O Pr. Dr. Jussiê Soares, responsável pelo projeto Observatório Itinerante, que em parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Piauí (Fapepi), realizou a construção de telescópios de baixo custo e a utilização desses instrumentos para aulas práticas nas comunidades da região do vale do Sambito, e conta que o projeto surgiu a partir da necessidade de divulgar a ciência e gerar mais credibilidade para essa área, nas comunidades piauienses.


“O projeto surgiu da necessidade de se trabalhar a Astronomia de forma a despertar o interesse da disciplina. Através da visualização de corpos celestes, pois é um atrativo. E para isso se utilizam instrumentos de aumento, no caso o telescópio. Telescópios bons, industriais, são caros. Então, a nossa ideia foi construir um [telescópio], com materiais de baixo custo, para que pudéssemos levá-lo às demais comunidades da região do vale do Sambito (Valença, Elesbão Veloso, Picos, entre outros), para que pudéssemos fazer observação de céu noturno. Daí o nome do projeto, Observatório Itinerante”, conta Jussiê.


Astronomia e Popularização da Ciência no Piauí

Para alavancar o conhecimento na área da Astronomia, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), em 2013, lançou o Edital para que pesquisadores de instituições nacionais desenvolvessem projetos relacionados à construção de museus de ciências. A Ufpi foi contemplada, através da proposta realizada pela professora Cláudia Melo, com os recursos necessários para a realização do projeto.


“Submetemos uma proposta, onde um dos equipamentos financiados era um planetário. O nosso projeto sofreu alguns cortes, mas esses cortes não prejudicaram a compra dos equipamentos. Então, conseguimos montar o planetário. Seria essa cúpula, o projeto, toda essa estrutura que vocês estão vendo aqui. Nós providenciamos, de imediato, a instalação desse planetário”, declara Drª. Cláudia.


A outra parte do museu, conta com vários outros equipamentos e têm como intuito a divulgação científica, porém ainda em fase de implantação. Esse incentivo do Ministério de Ciências e Tecnologia (MCT), é responsável pelo financiamento do projeto, que dentre os equipamentos financiados, tem o planetário como um dos mais caros.


A professora explica que mesmo com o alto valor de compra e manutenção, o planetário ainda não é um dos mais caros. Sua estrutura é feita em fibra de vidro, o que dificulta a exposição ao sol. Planetários com estrutura de concreto, como o projeto arquitetônico ainda em fase de desenvolvimento pela Prefeitura Municipal de Teresina (PMT), deve ser construído no Centro de Teresina, no Parque da Cidadania, na Avenida Frei Serafim, e terá investimento de cerca de R$ 8 milhões. Esse ambicioso projeto pretende popularizar a ciência da Astronomia para a comunidade de toda a Grande Teresina. O projeto pretende seguir os parâmetros do Planetário de Fortaleza (CE), localizado no Centro Cultural Dragão do Mar de Arte e Cultura, na Praia de Iracema.


Para o professor Jussiê Soares, a importância de projetos como o Observatório Itinerante e o Museu das Ciências (Ufpi) é a contribuição que essas atividades têm para difundir a ciência, principalmente para áreas como a Astronomia, que não costuma ter visibilidade dentro das escolas no País. Com a motivação certa, no tocante à difusão da ciência, além a abordagem que é dada, esse tipo de atividade ajuda muito a garantir o acesso ao conhecimento.


“A astronomia é uma disciplina que praticamente é inexistente nas séries iniciais, principalmente no ensino público. Então, uma das motivações foi essa, podermos levar o equipamento para todas as comunidades possíveis, colocá-lo nas praças para que todo mundo que passasse tivesse as devidas orientações e pudesse observar, entender melhor o que acontece. Isso acabou criando um ambiente favorável para outras atividades”, afirma Jussiê.



A astronomia no Piauí

A Astronomia, com a nova Base Nacional Comum Curricular, da Educação Básica, desenvolvida pelo Ministério da Educação (MEC), deve ter uma atenção maior. Ela fará parte do novo Currículo, o que apresenta uma demanda e preocupação com esta área para o futuro educacional no Brasil.


O planetário da Ufpi é o primeiro no estado do Piauí. Esse espaço inicia, no estado, a proposta de divulgação desse campo de conhecimento. Além do planetário, já existem programas da própria Sociedade de Astronomia, como a Olimpíada de Astronomia, que as escolas da educação básica participam. Contudo, apenas em projetos como o Museu de Ciências, o Observatório Itinerante e o Planetário conseguem apresentar esse conteúdo de forma interativa e dinâmica. O planetário da Ufpi, por exemplo, já está em funcionamento há três anos, recebeu até agora cerca de duas mil visitações.


“Existem mais grupos que se dedicam a essas curiosidades em astronomia. Mas nós precisamos, sim, de mais incentivo com relação ao estudo de astronomia. Com essa mudança da educação básica, faz-se necessários outros espaços para divulgação dessa área de conhecimento”, afirma a Drª. Cláudia.


Uma das dificuldades encontradas no decorrer da execução do projeto observatório itinerante, segundo o professor Jussiê Soares, é a dificuldade de deslocamento de bolsistas participantes, como o caso do Observatório Itinerante, pois era necessário que o bolsista, algumas vezes, pernoitasse na cidade para realizar a fabricação do telescópio. Mesmo com este percalço, houve a superação desse obstáculo, e, por conseguinte, obteve-se êxito na execução do projeto.


“Para que o projeto acontecesse, era necessário o acesso a um edital desse porte (editais de popularização da ciência), que são sempre muito importantes para englobar e ajudar na execução de projetos desse cunho. Os projetos necessitam de um aporte de recursos, para a compra de equipamentos e o deslocamento de bolsistas. Então, esses editais acabam viabilizando tais projetos. No caso do Piauí, sempre vejo a Fapepi com extrema importância. É uma agência de fomento que permite que pesquisadores iniciantes ou veteranos possam sempre poder desenvolver os seus trabalhos. Com isso, com certeza, conseguir uma abrangência importante para que todos possam ter acesso a esse tipo de atividade”, ressalta Jussiê.


Terraplanismo

A professora Cláudia Melo aponta um grave problema, quando o assunto é Astronomia. Ela garante que há uma enorme desinformação por parte da população quanto ao conhecimento astronômico, o que favorece a retomada de teorias (pelo senso comum) já ultrapassadas, como a da “Terra plana”.


“É preciso fazer a divulgação científica para tirar determinadas afirmações que o homem abandonou há séculos. Esse tipo de pensamento sempre vai existir. Até hoje ainda existem pessoas que acreditam que o homem não foi à lua. Então, não tem como se erradicar esses problemas imediatamente. Mas, quanto mais pessoas tiverem acesso a esse conhecimento acumulado pelos pesquisadores de astronomia melhor, porque aí vai-se criar uma sociedade que não vai apenas consumir as coisas, mas entender o que ela está consumindo”, declara.


A ciência no Brasil, segundo Jussiê, está sofrendo ataques severos, e que é exatamente através de divulgação de notícias falsas, sem embasamento científico, que trabalhos desenvolvidos, durante anos, com afinco estão sendo prejudicados.


“De fato a ciência, principalmente no Brasil, está sofrendo ataques severos, uma espécie de universalização da ignorância, exatamente através de divulgação de notícias falsas [...] que de fato prejudicam trabalhos que levaram anos para serem desenvolvidos. O terraplanismo é um deles [fake-news]. De fato, nós sabemos que a terra possui um formato aproximadamente esférico, devido à ação gravitacional, ao longo dos anos, do próprio processo de formação dos planetas e demais corpos celestes. É uma teoria que tem alguns seguidores, não diria muitos, pois proporcionalmente eles [terraplanistas] respondem por uma parcela mínima. No entanto, a abrangência das redes sociais e demais meios de comunicação estão permitindo que alguns defensores dessas ideias divulguem esse tipo de conteúdo, fazendo com que pessoas que ainda não tiveram acesso a estudos fidedignos, estudos verdadeiros, adotem esse tipo de pensamento”, declara Jussiê Soares.


Jussiê ainda ressalta que existe uma parcela de ideologias por trás dessas falsas notícias. Mas que é necessário a comunidade científica ir, aos poucos, tentando desmistificar esses conteúdos, para que possa defender o que a ciência construiu até hoje.


Cláudia acredita que é importante combater essas falsas notícias, pois se a sociedade não obtiver acesso ao conhecimento, pode voltar a ter um senso comum abandonado há muito tempo pelo homem. Por isso, Cláudia argumenta que é importante ter conhecimento dos modelos de Astronomia, ir em busca de planetas, de estudar outras estrelas e ter essa curiosidade em estudar o universo, pois isto é atualizar o conhecimento da sociedade, o que proporciona avanços significativos que facilitam o cotidiano das pessoas.


Aumento da credibilidade científica

A ciência, para Cláudia, deve ser revelada à população da maneira mais simples e concreta, caso contrário, haverá ainda mais dificuldade para que as pessoas consigam perceber como funciona o mundo e quais os avanços possíveis através da pesquisa científica.


“Quando se está no meio, você já tem uma abstração que faz a credibilidade das ideias maiores. Quando não se é do meio, conseguir provar às pessoas, que acreditam mais no que elas enxergam, do que o que se tem de concreto, é mais difícil. Por isso, é importante mostrar o mais próximo do real, o conhecimento científico. Por exemplo, dentro do Sistema Solar, se vê o sistema, os planetas, mas se não for explanado de maneira alguma para a população, a ideia de como realmente são essas dimensões, qual o tamanho da Terra em comparação a Júpiter, por exemplo, se não for visto, não for mostrado um modelo que a Terra é uma bolinha, uma peteca, e Júpiter é uma bola daquelas gigantes que a gente compra em parque de diversão, a pessoa não vai conseguir ter essa noção de diferença”, afirma Cláudia.


Ela completa ainda que o pesquisador tem que ter em mente que nem todas as pessoas conseguem perceber determinadas aplicações ou conceitos já que não têm familiaridade, por isso a Ciência precisa que os trabalhos sejam efetivamente divulgados.


“Por que nem todo mundo trabalha na área de ciência, onde algumas ideias são bem abstratas. Então, é crucial que seja aproximado, esses conceitos, à população. Por que quando se consegue aproximar, fica mais difícil ela ser ludibriada com ideias que não são mais aceitáveis”, declara Cláudia.


Em Teresina, ressalta Jussiê Soares, existe um grupo denominado graviton (a qual o mesmo faz parte), que é uma sociedade científica. De costume, o grupo realiza eventos, como observações de céu diurno e noturno, feiras, exposições, e versam sobre a astronomia. Para ele, existe a necessidade de divulgar cada vez mais a Astronomia, que apresenta, durante esses eventos, ampla participação popular.


“Colocamos os telescópios na praça, organizamos os nossos membros de forma a orientar cada pessoa com bastante paciência acerca do que elas estão observando ali. Notamos que a procura sempre aumenta, que as pessoas se interessam cada vez mais. Prova disso são as enormes filas que são formadas quando realizamos esse tipo de evento. As pessoas passam a entender, na prática, como realmente funciona a astronomia. De certa forma, é um trabalho que ajuda muito na educação das pessoas, ajuda muito na construção do conhecimento, e isso acaba por disseminar, difundir a ciência, de forma que ela sempre tenha crédito perante as pessoas”, finaliza Jussiê.